Denis Côté

Essa conversa foi realizada via email em francês, respondida por Denis Côté na Lituânia, que desculpou-se pela respostas sucintas devido seus compromissos apresentando seu mais recente filme em um festival. Tradução de Fernando Silva e Silva da APPH (Associação de Pesquisa e Práticas em Humanidades).

Porto Alegre e Lituânia, Setembro de 2013.

Plataforma: Inicialmente, gostaríamos que você falasse um pouco sobre qual foi o embrião para você chegar na idéia de BESTIAIRE. E segundo, como outras abordagens diferentes que você executou nos seus filmes anteriores (como em CURLING ou CARCASSES) colidiram ou impulsionaram a forma de realização do BESTIAIRE.

Denis Côté: Quando eu filmei a cena do tigre em Curling, a administração do zológico me propôs de voltar lá e fazer um filme. Eu tive que pensar em uma abordagem original. Eu não queria fazer um documentário tradicional. Eu me disse que um zoológico é um lugar absurdo e que era necessário tirar disso um tipo de ballet absurdo, no qual todo mundo parece espiar e observar todo mundo. Isso resultou num exercício contemplativo muito mais sombrio do que o que eu queria fazer no início, algo de ingênuo: uma sequência de imagens e sons.Hoje, muitas pessoas veem o filme como algo de militante contra zôológicos. Não é isso. É mais algo de muito aberto em que cada ser (humano ou animal) parece ser o objeto de contemplação de um outro ser. O que permanece de Curling ou Carcasses é o trabalho com os quadros, o rigor, uma certa fascinação em observar as coisas.

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P: Gostaríamos que você comentasse um pouco sobre como sua ida para lecionar na Le Fresnoy, que aparece inclusive nos créditos de abertura do BESTIAIRE, influenciou de alguma forma para você a concepção e realização do filme e sua forma de pensar e fazer cinema.

DC: Para falar a verdade, minha curta passagem como professor na Le Fresnoy não influenciou conscientemente a realização do filme. Tinham me dado um pouco de dinheiro para realizar um projeto e eu utilizei esse dinheiro para o Bestiaire, o qual eu já estáva filmando no Québec antes de chegar na Le Fresnoy. Nós fizemos a mixagem e a correção de cor do filme na França e só.

P: Ainda um pouco sobre a Le Fresnoy, gostaríamos de saber em que pontos você acha que o seu filme se aproxima das artes visuais, algo que sempre cita-se quando se fala do filme e gostaríamos que você falasse a respeito desse encontro que o filme parece propor entre cinema e museu e o atrito das fronteiras entre essas formas de arte.

DC: Quando eu terminei o filme, eu não sabia se era cinema e se eu devia dizer que era “experimental”. Isso me parecia tão simples, tão bruto, tão ingênuo. Eu pensei que era talvez um tipo de instalação, mas ao fim, na verdade, o filme passou por mais ou menos 75 festivais de cinema e não foi exibido em museus. Isso me assegura que a definição do que é um filme é mais ampla do que eu achava. Bestiaire mostra e conta insconscientemente alguma coisa. É um filme de ficção, pois muitas coisas são manipuladas nele, como o som e as escolhas de enquadramento. Eu não gosto muito que se fale em documentário.

P: O filme possui uma forma rigorosa e uma mise-en-scène de flerte com o contracampo muito particular, que armam um jogo provocante com o público, fazendo refletir sobre a sua condição, convida a pensar o lugar do espectador. Gostaríamos de saber mais sobre como você vê o lugar do público neste filme, e como pensa o lugar do público na sua produção, pois há uma diversidade no seu trabalho, entre filmes de ficção, documentários, chegando ao BESTIAIRE, que você mesmo uma vez citou em outra entrevista que o filme não seria nem ficção, nem documentário, nem filme de ensaio.

DC: Eu sou obcecado, hoje em dia, com o lugar que deve tomar um espectador quando assiste um filme. Me disseram no começo da minha carreira que eu fazia filmes só para mim, que apenas eu me entendia. Me fazia mal ouvir isso. Bestiaire só existe através do espectador e através daquilo que ele tem vontade de trazer ao filme. A personalidade do espectador é totalmente um “personagem” em Bestiaire, que pode rapidamente se tornar entediante se o espectador não é participativo. Eu acho que é um objeto muito aberto que respeita se espectador. Minha direção é “calma”, rigorosa: ela convida o espectador em suas cenas. Ela não impõe nada a ele.

P: Você propõe esse livro das muitas formas de imagens dos animais, em que vemos soltos em um campo, enjaulados, mortos, dentro de um papel desenhados ou sendo empalhados. O filme tem uma curiosa sequencia com separações entre essas formas de representação em que, por exemplo, os desenhos são separados do zoológico pelos créditos de abertura e o zoológico separados dos taxidermistas por um fade-out. Gostaríamos que você falasse um pouco sobre as diferentes representações que você coloca no filme.

DC: Eu tinha que encontrar uma estrutura para o filme. Eu escolhi ir pelas estações e sua passagem. O inverno, a espera, o esperar na primavera, depois a chegada dos visitantes no verão. Além disso, há no filme ideias que giram ao redor de nossa obsessões em possuir e ter autoridade sobre o mundo animal: a representação, a ressureição e uma certa loucura da conservação.

P: Seu filme tem uma forma muito particular de direção e relação da camera com seus objetos ou podemos chamar de “atores”. No caso, temos muitos personagens não dirigíveis, mas que de certa forma nos apresentam muitas vezes uma mise-en-scène fascinante e coreografada, que nos é brindada pelo acaso. Volta e meia pra nós, alguns desses animais são tão engraçados quanto um Walter Matthau ou expressivos como um John Cassavetes. Gostaríamos que você falasse um pouco sobre essa relação da camera com as personagens “não dirigíveis”, sobre a simplicidade e ingenuidade das pequenas situações que ali encontramos e a coreografia perfeita do acaso.

DC: Não é um filme muito “excitante” de filmar. É necessário passar de uma jaula à outra tentando encontrar o plano certo, a distância certa, o quadro certo. É necessário se deixar fascinar por cada animal-ator. Alguns são mais cinematográficos que outros e cada um reage de maneira diferente à nossa presença. É necessário ser humilde e encontrar a melhor relação de respeito. A gente vem roubar a imagem deles. É necessário ser sensível a isso, mesmo se eles não entendem nada do que está acontecendo. Eu não estava tentando humanizar os animais, como tantos filmes tentam fazer. Eu buscava a animalidade deles da maneira mais original possível.

P: Para terminar, queríamos lembrar que o filme tem uma curiosa representação dos humanos, que se estende à sensação do espectador ao longo do filme. Nos parece um dos poucos filmes nas últimas décadas em que um ser humano parece tão bem representado como um “extra-terreste” para àquela realidade exposta. É incrível essa troca de energia entre espécies que se constrói a cada plano e como sempre parece haver um abismo entre os animais e as pessoas. Grades, cercas, paredes, jaulas, a pata do tigre no vidro que aparece como uma pata na lente da camera… Gostaríamos que você falasse um pouco a respeito disso.

DC: Eu não sabia bem como incluir meus humanos na grande estrutura do filme. Eu não queria os mostrar como carrascos (o que eles não são) e nem como as pessoas mais gentis do mundo. Eu buscava um tipo de “encarada”, eu buscava “o observador observado”. Eu não queria demonizar ninguém ou criar herois, então eu “encarei” todos um pouco. Quem são eles, o que fazem? Simples vontade de distância.